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Filosofia contra o sistema
O caçador e o jardineiro
Revista Cult 2012-02-26
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman afirma que é preciso acreditar no potencial humano para que outro mundo seja possível.

Zygmunt Bauman é um dos pensadores que mais têm produzido obras que refletem os tempos contemporâneos. Nascido na Polônia em 1925, o sociólogo teve um histórico de vida que passou pela ocupação nazista no seu país durante a Segunda Guerra, pela ativa militância em prol da construção do socialismo no seu país, sob a direta influência da ex-União Soviética, pela crise e pelo desmoronamento do regime socialista. Vive hoje na Inglaterra, em tempos de grande mobilidade de populações na Europa.

Professor emérito de sociologia da Universidade de Leeds, Bauman propõe o conceito de ?modernidade líquida? para definir os tempos atuais, em vez do já batido termo ?pós-modernidade?, que, segundo ele, virou mais um qualificativo ideológico que um conceito.

Define modernidade líquida como um momento em que a sociabilidade humana experimenta uma transformação que pode ser sintetizada nos seguintes processos: a metamorfose do cidadão (como sujeito de direitos) em indivíduo em busca de afirmação no espaço social; a passagem de estruturas de solidariedade coletiva para as de disputa e competição; o enfraquecimento dos sistemas de proteção estatal às intempéries da vida, gerando um permanente ambiente de incerteza; a colocação da responsabilidade por eventuais fracassos no plano individual; o fim da perspectiva do planejamento a longo prazo; e o divórcio e a iminente apartação total entre poder e política.

Leia abaixo parte da entrevista concedida por Bauman à revista CULT.

CULT ? Em Tempos Líquidos, o senhor afirma que o poder está fora da esfera da política e há uma decadência da atividade do planejamento a longo prazo. Diante disso, é possível pensar ainda em um resgate da utopia?
Zygmunt Bauman ? Para que a utopia nasça, é preciso duas condições.
A primeira é a forte sensação (ainda que difusa e inarticulada) de que o mundo não está funcionando adequadamente e deve ter seus fundamentos revistos para que se readeque.
A segunda condição é a existência de uma confiança no potencial humano à altura da tarefa de reformar o mundo, a crença de que ?nós, seres humanos, podemos fazê-lo?. Essa crença está articulada com a racionalidade capaz de perceber o que está errado com o mundo, saber o que precisa ser modificado, quais são os pontos problemáticos e ter força e coragem para extirpá-los.
Em suma, potencializar a força do mundo para o atendimento das necessidades humanas existentes ou que possam vir a existir.

Por que se fala tanto hoje em ?fim das utopias??
Na era pré-moderna, a metáfora que simboliza a presença humana é a do caçador. A principal tarefa do caçador é defender os terrenos de sua ação de toda e qualquer interferência humana, a fim de defender e preservar, por assim dizer, o ?equilíbrio natural?.
A ação do caçador repousa sobre a crença de que as coisas estão no seu melhor estágio quando não estão com reparos; de que o mundo é um sistema divino em que cada criatura tem seu lugar legítimo e funcional; e de que mesmo os seres humanos têm habilidades mentais demasiado limitadas para compreender a sabedoria e a harmonia da concepção de Deus.
Já no mundo moderno, a metáfora da humanidade é a do jardineiro. O jardineiro não assume que não haveria ordem no mundo, mas ela depende da constante atenção e do esforço de cada um. Os jardineiros sabem bem que tipos de planta devem e não devem crescer e que tudo está sob seus cuidados.
Ele trabalha primeiramente com um arranjo feito em sua cabeça e depois o realiza. Ele força a sua concepção prévia, o seu enredo, incentivando o crescimento de certos tipos de planta e destruindo aquelas que não são desejáveis, as ervas ?daninhas?.
É do jardineiro que tendem a sair os mais fervorosos produtores de utopias. Se ouvimos discursos que pregam o fim das utopias, é porque o jardineiro está sendo trocado, novamente, pela ideia do caçador.

Revista Cult




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