Luz, cmera... ao! H quase um sculo os produtores americanos despejam nas salas de cinema uma quantidade impressionante de filmes de guerra que fascinam espectadores em todo o mundo. Mas ser que esses aficionados sabem que muitas dessas obras jamais veriam a luz do dia sem o apoio do Departamento de Defesa dos Estados Unidos? Que este, ao conceder ajuda s produes, cuida de sua imagem junto ao pblico, favorece sua poltica de recrutamento, exerce censura e apresenta a guerra como uma soluo necessria?
Produzir um filme custa caro. Preocupados em economizar, alguns cineastas pedem todo tipo de ajuda ao Pentgono: imagens de arquivo, assessoria tcnica, acesso a equipamentos de ltima gerao, autorizao para filmar em instalaes militares etc. Para isso, os criadores submetem seus roteiros a um dos muitos escritrios do Pentgono responsveis por fazer a ponte entre os militares e Hollywood. Aps vrias leituras atentas do roteiro, os oficiais das Foras Armadas decidem dar ou no o sinal verde para a produo. Os termos da colaborao so ento inscritos em um contrato restritivo: ?A produo dever ajudar os programas de recrutamento das foras armadas. (...) A companhia produtora consultar o Departamento de Defesa para todas as cenas militares durante a preparao, filmagem e montagem?. Segundo Philip Strub, assessor especial de mdia e entretenimento do Departamento de Defesa, ? nosso interesse participar da produo de filmes?.
As premissas dessa troca de gentilezas datam praticamente do nascimento do cinema, quando o clssico O nascimento de uma nao, de D. W. Griffith (1915), contou com assessoria tcnica do exrcito americano. O primeiro escritrio especfico para o contato com Hollywood foi aberto pelo Pentgono nos anos 20. A primeira colaborao em grande escala data de 1927, quando as filmagens de Wings (Asas), de William Wellman, contaram com a participao de um conselheiro tcnico militar da diviso area do exrcito de terra. Durante o perodo entre-guerras proliferaram filmes que exaltavam a superioridade militar americana e procuravam convencer o pblico de que os Estados Unidos deveriam enfrentar a escalada do totalitarismo do Velho Continente. Finalmente, em 7 de dezembro 1941, o bombardeio da frota americana em Pearl Harbor pela aviao japonesa iria convencer definitivamente os americanos de que seu pas deveria entrar de cabea na Segunda Guerra Mundial. Hollywood se mobilizou. Atores como James Stewart, Robert Montgomery, Tyrone Power, Douglas Fairbanks e Clark Gable alistaram-se no exrcito. Em 1942, o presidente Franklin D. Roosevelt institucionalizou as relaes com Hollywood com a criao do Office of War Information (Escritrio de Informaes de Guerra) e convidou John Ford e Frank Capra a colocarem seus talentos a servio do esforo de guerra. Capra assumiu a direo dos servios cinematogrficos do exrcito, e Ford foi enviado ao Pacfico para cobrir em primeira mo o conflito.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o cinema americano passou a ser pautado pela Guerra Fria. Em Hollywood, a ?caa s bruxas? promovida pelo senador Joseph Mc- Carthy desencadeou uma perseguio contra roteiristas, produtores e atores simpatizantes do Partido Comunista Americano. Nos anos 60, o casamento entre os diretores e o Departamento de Defesa viveu um perodo de esplendor com filmes que celebravam os feitos do exrcito americano, como O mais longo dos dias, produzido por Darryl F. Zanuck (1962); Uma batalha no inferno, de Ken Annakin (1965) e Tora! Tora! Tora!, de Richard Fleischer (1970).
A Guerra do Vietn, porm, colocou um freio nessa aliana cordial. As manifestaes contra o conflito se multiplicaram e os americanos se dividiram. Hollywood se absteve de filmar a guerra e, diante desse silncio, em 1968 John Wayne pediu ao presidente americano que intercedesse junto ao exrcito para que este o ajudasse a adaptar para o cinema o romance The green berets (Boinas Verdes), no intuito de inspirar ?uma atitude patritica nos americanos?. Bingo! O exrcito lhe forneceu tudo que desejava, alm de uma doao de vrios milhes de dlares. Reacionrio at no poder mais, o filme uma apologia da luta armada conduzida no Vietn.
Nessa mesma veia patritica, outra produo contou com total colaborao do exrcito, em 1970: o inacreditvel Patton ? Rebelde ou heri?, de Franklin J. Schaffner. Ao assistir a esses filmes, os americanos perceberam pouco a pouco que seus filhos estavam sendo massacrados do outro lado do Pacfico. O casamento entre o exrcito e Hollywood caminhava para o divrcio. O fracasso no Vietn deu origem a uma srie de filmes mostrando uma viso no idealizada da guerra. Em 1979, Francis Ford Coppola dirigiu o clssico Apocalypse Now. Inspirado no romance O corao das trevas, de Joseph Conrad, o filme relata a aventura do capito Willard (Martin Sheen), incumbido de matar um ?Boina verde? desertor, o coronel Kurtz (Marlon Brando), que liderava um exrcito de rebeldes. Coppola pediu auxlio ao exrcito americano para financiar os altos custos de produo do filme, mas sua solicitao foi recusada. O motivo? Pedir a um soldado que execute outro contrrio tica militar. O Pentgono lhe pediu que mudasse a palavra ?executar?, o que o obrigaria a transformar toda a histria. O diretor no aceitou e partiu rumo s Filipinas para filmar algumas cenas, alugando material do exrcito do ditador Ferdinando Marcos.
Outra produo dessa mesma gerao, embora mais tardia, denunciou a tragdia vietnamita sem a colaborao do Pentgono. Em 1968, Oliver Stone ? ferido por duas vezes no Vietn ?, dirigiu Platoon. O filme, abertamente inspirado em sua experincia na linha de frente, mostra soldados americanos hesitantes, uma atitude inaceitvel aos olhos do exrcito. O diretor teve de esperar dez anos para conseguir financiar seu filme, mas a espera valeu a pena: quando saiu, Platoon se tornou um verdadeiro sucesso. Desde ento os americanos vem com outros olhos os veteranos dessa guerra.
O divrcio entre Hollywood e o Pentgono, porm, no durou muito. Com a eleio do antigo ator Ronald Reagan para a Casa Branca, em 1982, militares e diretores afinaram novamente seus violinos. Segundo o presidente americano, a necessidade de combater a Unio Sovitica era primordial, e Hollywood seguiu a diretriz: musculoso e armado at os dentes, Sylvester Stallone encarnou um soldado americano que vence sozinho a Guerra do Vietn na srie Rambo. Mais assptico, mas igualmente eficaz, Top Gun, de Tony Scott (1986), marcou vrias geraes. Com seus cabelos engomados e sorrisos carniceiros, os personagens do filme restabeleceram o prestgio do exrcito americano. O longa-metragem recebeu total apoio da Marinha, sob a condio de valorizar o papel dos militares que atuam em alto-mar. Top Gun fez tanto sucesso que o exrcito instalou escritrios de recrutamento na sada dos cinemas!
A queda do muro de Berlim, em 1989, mudou a situao. A caada ao Outubro Vermelho, de John Mc-Tiernan, em 1990, sacramentou a idia de que a Unio Sovitica no era mais uma ameaa para os Estados Unidos. O filme narra a histria de um comandante russo, interpretado por Sean Connery, que, em vez de atacar os Estados Unidos com um submarino nuclear , o entrega aos antigos inimigos. A produo contou com grande apoio da Marinha americana, que chegou a abrir a base de Norfolk para as filmagens. Para completar, Fred Thompson, o ator que interpreta o almirante Joshua Painter do USS Enterprise, um senador republicano carismtico na vida real.
No momento em que os russos deixaram de ser uma ameaa, quem se tornaria o novo inimigo? Diante do vcuo de oponentes, a cooperao Hollywood-Pentgono criou um gnero de filme diferente. ?No se trata mais de guerra, mas de segurana nacional. A nova fora narrativa coloca em cena desafios assimtricos, isto , concentra-se em temticas do terrorismo, de armas de destruio em massa e at da mfia?, conta Maurice Ronai, pesquisador da Escola de Altos Estudos em Cincias Sociais de Paris. Os atentados de 11 de setembro de 2001 colaboraram para uma nova aproximao entre o mundo do cinema e o Pentgono, e agora, alm do Departamento de Defesa, a CIA, o FBI e outros servios secretos em permanente rivalidade tambm passaram a colaborar com os estdios de cinema. Inimigo do Estado, de Tony Scott (1998); Em m companhia, de Joel Schumacher (2002); A soma de todos os medos, de Phil Alden Robinson (2002) e O novato, de Roger Donaldson (2003), so alguns exemplos de longas-metragens que tiveram auxlio dos servios especiais americanos. Paralelamente, o estrondoso sucesso de O resgate do soldado Ryan, de Steven Spielberg (1998), relanou a moda dos filmes com altos oramentos que tratam da Segunda Guerra Mundial.
Mas, passada a febre ps-11 de Setembro, o Pentgono e Hollywood parecem estar novamente se distanciando. Desde que os soldados americanos comearam a ser enviados para o inferno iraquiano, o Estado-Maior vem enfrentando dificuldade cada vez maior para conseguir novos recrutas e, aps um perodo de silncio, Hollywood comeou a produzir uma srie de filmes sobre o conflito. Essas novas produes, no entanto, no expressam uma opinio muito favorvel sobre as decises tomadas pelo Departamento de Defesa nos ltimos tempos.
Altos e baixos da Guerra Fria: nos anos 70, o fracasso dos Estados Unidos no Vietn abriu uma crise entre Hollywood e o Pentgono. Filmes como Apocalypse Now (1) e Platoon (2) foram rodados sem apoio do exrcito e apresentaram uma viso crtica dos soldados americanos. A situao se inverteu nos anos 80, quando produes como Rambo (3) e Top Gun (4) se tornaram verdadeiras peas de propaganda das Foras Armadas. Finalmente, em 1990, A caada ao Outubro Vermelho (5) colocou um ponto final no confronto entre Estados Unidos e Unio Sovitica nas telas de cinema
Historiaviva