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Tempos de turbulncia
Um tero dos adolescentes brasileiros apresenta sinais de sofrimento psquico
RICARDO ZORZETTO 2018-03-19

Perodos de transio costumam gerar desconforto e podem ser conturbados. Se assim em uma troca de emprego ou mudana de cidade, talvez no se devesse esperar algo diferente da adolescncia, uma fase de transformaes fsicas, mentais e sociais intensas. Nessa poca da vida, um em cada trs adolescentes brasileiros j apresenta sinais de algum grau de sofrimento psquico, segundo o mais amplo levantamento sobre a sade de jovens j feito no pas, o Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes ou Erica.

O trabalho tambm avaliou, por meio de um questionrio de 12 perguntas, a ocorrncia de sintomas de ansiedade e depresso em 75 mil estudantes de 1.247 escolas pblicas e particulares de 124 municpios com mais de 100 mil moradores. Esses sinais, agrupados sob o conceito nico e abrangente de transtornos mentais comuns, foram bem mais frequentes nas garotas do que nos rapazes ? algo j observado em estudos anteriores feitos no Brasil e no exterior, em geral com menos pessoas e em poucas cidades.

No levantamento atual, em mdia, 38,4% das moas e 21,6% dos rapazes apresentaram queixas que se enquadravam na definio de transtorno mental comum no momento da pesquisa. Como tambm j era esperado, a proporo de casos cresceu com o avano da idade: alcanou 34,1% entre os adolescentes na faixa etria de 12 a 14 anos e 40,4% entre aqueles que tinham de 15 a 17 anos.

?Havia estudos de prevalncia nesses grupos feitos em outros pases, mas quem trabalha com sade mental sentia falta de ter dados nacionais representativos da populao jovem?, conta a psiquiatra e epidemiologista Claudia de Souza Lopes, professora do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e responsvel pela parte de sade mental do Erica. ?Esses dados sobre os transtornos mentais podem ajudar a orientar polticas pblicas de sade e educao?, afirma.

Apresentados em fevereiro deste ano na Revista de Sade Pblica, os resultados do Erica indicam que, de modo geral, a prevalncia dos transtornos mentais comuns praticamente no variou de uma regio para outra do pas, embora se note uma diferena importante de acordo com o sexo e o grupo etrio. As taxas foram especialmente altas entre as adolescentes mais velhas das regies Norte e Centro-Oeste.

O fato de 30% dos adolescentes entrevistados apresentarem sinais de ansiedade e depresso chamou a ateno dos pesquisadores e de outros especialistas, mas esse dado deve ser interpretado com cautela. ?Os nmeros encontrados no Erica possivelmente servem como um indicador de sofrimento psquico, mas no de doena mental?, explica a psiquiatra e epidemiologista Laura Andrade, professora do Instituto de Psiquiatria da Universidade de So Paulo (IPq-USP).

O objetivo do Erica nem era fazer o diagnstico e definir quem tem ou no doena psiquitrica, mas identificar provveis casos do problema. Para isso, valeu-se de um questionrio de rastreamento, que, por ser um instrumento mais sensvel e menos especfico, pode incluir entre os suspeitos muitos indivduos sem transtorno mental (falsos-positivos). Embora no permita o diagnstico, o rastreamento pode indicar manifestaes precoces de transtornos graves que s podero ser plenamente caracterizados mais tarde. ?Um instrumento desses indica quais so os indivduos que preciso acompanhar com mais ateno, completa o psiquiatra Wang Yuan Pang, pesquisador do grupo de Laura no Ncleo de Epidemiologia Psiquitrica do IPq-USP.

A maioria dos especialistas consultados nesta reportagem estima que uma proporo menor ? talvez um tero dos adolescentes classificados como tendo transtornos mentais comuns, o equivalente a 10% do total ? apresente, de fato, algum problema de sade mental que exija acompanhamento mdico e o possvel uso de medicamentos. O restante poderia se beneficiar de sesses de psicoterapia ou mesmo de medidas de promoo de sade, como o incentivo prtica de esportes. Quem acha o nmero do Erica exagerado toma como base o resultado de trabalhos anteriores, realizados com um nmero menor de participantes e o uso de ferramentas de diagnstico.

Um deles o estudo conduzido entre 2010 e 2011 por pesquisadores de So Paulo, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul em quatro cidades brasileiras com mais de 50 mil habitantes e ndice de desenvolvimento semelhante mdia nacional ? Caet (MG), Goianira (GO), Itaitinga (CE) e Rio Preto da Eva (AM). Nesse levantamento, os pesquisadores usaram um questionrio de diagnstico para avaliar a sade mental de 1.623 crianas e adolescentes com idade entre 6 anos e 16 anos e verificaram que 13,1% deles apresentavam algum transtorno psiquitrico no momento da avaliao.

Os problemas mais frequentes, segundo artigo publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria em 2015, foram os transtornos de ansiedade, marcados por medo, pavor ou apreenso excessivos, mesmo quando no h uma ameaa real. Nesse trabalho, os pesquisadores verificaram ainda que apenas uma em cada cinco crianas que receberam o diagnstico de problema psiquitrico ? portanto, com indicao para passar por tratamento mdico ou psicolgico ? havia tido acesso a algum especialista em sade mental no ano anterior, em geral um psiclogo.

?O uso de instrumentos de diagnstico requer um treinamento mais complexo do entrevistador e torna o estudo muito caro?, explica a psiquiatra Isabel Bordin, professora da Universidade Federal de So Paulo (Unifesp) e uma das coordenadoras do estudo feito nas quatro cidades brasileiras. Por essa razo, grandes levantamentos costumam adotar questionrios de rastreamento.

J h algum tempo se sabe que os transtornos psiquitricos, alm de crnicos e incapacitantes, manifestam-se relativamente cedo na vida. Um estudo publicado em 2005 pelo socilogo Ronald Kessler, especialista em epidemiologia da sade mental da Universidade Harvard, mostrou que metade dos casos comea antes dos 14 anos de idade e dois teros se instalam at os 24 anos.

Crianas 248

Genes, ambiente e hormnios
Nos ltimos tempos, essa constatao se somou ideia, hoje aceita tanto pela medicina como pela psicologia, de que os transtornos mentais resultam de interaes entre as caractersticas genticas do indivduo e as condies sociais, econmicas, culturais e psicolgicas em que vive. Unidas, elas favorecem a noo de que os transtornos psiquitricos so consequncia de alteraes no desenvolvimento do crebro.

As transformaes por que o corpo passa aps o incio da puberdade podem tornar o adolescente mais vulnervel aos transtornos mentais. O aumento na produo dos hormnios sexuais faz o corpo amadurecer do ponto de vista reprodutivo e, sob alguns aspectos, alcanar o pice de seu funcionamento: os reflexos se tornam rpidos como jamais voltaro a ser e a memria encontra-se afiada como nunca. Nos rapazes, a testosterona aumenta a fora fsica e impulsiona comportamentos agressivos, enquanto a progesterona deixa o humor das meninas mais sujeito a oscilaes. tambm nessa fase que o crebro passa por um grande remodelamento: conexes frgeis entre suas clulas so eliminadas e as mais robustas, fortalecidas, definindo certos traos de personalidade.

? um perodo de muita vulnerabilidade, em que se est mais sensvel aos estmulos ambientais?, afirma a psiquiatra especializada em infncia e adolescncia Sandra Scivoletto, professora do IPq-USP. Aumenta a necessidade de interagir com os amigos, ao mesmo tempo que se desenvolve a capacidade de compreender as intenes que existem por trs das relaes sociais. Com o amadurecimento do chamado crebro social, o adolescente aprende que os sinais no verbais da comunicao podem refletir o estado emocional. ?A interao social tambm se torna mais complexa, exigindo mais habilidades cognitivas para uma integrao adequada ao grupo?, conta Sandra. ?A necessidade de se sentir pertencente turma e o receio de rejeio aumentam o estresse, que se soma ao gerado pelas novidades e experimentaes, podendo comprometer o funcionamento do adolescente e caracterizar o incio de um transtorno psiquitrico.?

LO RAMOS
A adolescncia  um perodo de vulnerabilidade, em que se est mais sensvel aos estmulos ambientais

A adolescncia um perodo de vulnerabilidade, em que se est mais sensvel aos estmulos ambientais

Traumas precoces
O que se manifesta na adolescncia como problema de sade mental pode, ao menos em parte, ser consequncia de eventos ocorridos muito tempo antes. Est cada vez mais evidente que a exposio repetida a maus-tratos nos estgios iniciais da vida aumenta o risco de desenvolver problemas psiquitricos. E maus-tratos no significam necessariamente agresses extremamente intensas, como surras frequentes ou abuso sexual. Podem ser eventos bem mais sutis, como o ato de negligenciar as necessidades fsicas ou emocionais da criana ou no estimular o seu desenvolvimento. ?Pouco mais da metade dos casos de depresso so considerados decorrentes de maus-tratos vividos na infncia e adolescncia?, relata a psiquiatra Elisa Brietzke, professora da Unifesp.

O efeito dos maus-tratos sobre o crebro pode ser profundo a ponto de alterar algumas de suas estruturas. Em um artigo de reviso publicado este ano no Journal of Child Psychology and Psychiatry, o neurofarmaclogo Martin Teicher e a psicloga Jacqueline Samson, ambos pesquisadores do Hospital McLean, em Belmont, e professores na Universidade Harvard avaliaram estudos de neuroimagem de pessoas com problemas psiquitricos realizados nas ltimas dcadas. Eles concluram que muitas das alteraes anatmicas antes atribudas aos transtornos mentais na realidade podem ser decorrentes de maus-tratos vividos na infncia, algo comum no mundo todo.

Outro trabalho de reviso deste ano, feito por pesquisadores dos Centros de Controle e Preveno de Doenas (CDC) dos Estados Unidos, estima que metade das crianas e adolescentes ? quase 1 bilho de pessoas com idade entre 2 anos e 17 anos ? seja vtima de violncia no mundo. Antes, outro grupo dos CDC havia concludo que os maus-tratos na infncia custam mais caro para o sistema pblico de sade do que o cncer e as doenas cardacas. Essa mesma equipe calculou que a hipottica erradicao dos maus-tratos evitaria metade dos casos de depresso e dois teros dos casos de alcoolismo, alm de reduzir o suicdio, o uso de drogas e a violncia domstica.

Uma boa notcia que em muitos casos possvel reverter, ou ao menos amenizar, os efeitos das privaes e dos maus-tratos. Um dos exemplos de sucesso o Programa Equilbrio, projeto de reabilitao de crianas e adolescentes que haviam sofrido maus-tratos e viviam nas ruas de So Paulo (muitos deles eram usurios de droga), desenvolvido por Sandra Scivoletto. Em 2007, Sandra, com a colaborao de sua equipe na USP, de organizaes no governamentais e da prefeitura de So Paulo, instalou em um centro esportivo comunitrio na regio central da cidade um programa de atendimento multidisciplinar ? eram oferecidos tratamento mdico, psicolgico, fonoaudiolgico, alm de terapia ocupacional, apoio psicopedaggico e suporte social ? para ajudar essas crianas e adolescentes a criar vnculos na comunidade e a melhorar a autoestima. Desde seu incio, o programa atendeu pouco mais de 600 crianas e adolescentes. Dos 351 jovens que haviam ingressado na fase inicial do programa (58,4%, vtimas de violncia fsica ou sexual), dois teros continuavam a participar dois anos mais tarde e 34% haviam voltado a viver com a famlia. ? inacreditvel a capacidade de resilincia que essas crianas tm?, conta Sandra.


Fapesp




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